O Fofão não é apenas uma imagem do
passado; é um personagem multifacetado que se manifesta entre planos, formas e
cores, consolidando-se como a pulsação
viva do Carnaval maranhense. Personagem mascarado por excelência, ele
emerge de uma rica genealogia hibridizada, forjada na intersecção entre os
tipos histriônicos das comédias de rua europeias e a inventividade local. É
nesse diálogo entre o universal e o particular que o Fofão se protagoniza, convertendo referências globais em uma consanguinidade simbólica que define
nossa identidade cultural.
Performance
e genealogia do gesto
Longe
de ser uma figura estática, o Fofão é
um agente de transformação urbana. Sua atuação é uma ação processual de produção de sentido, sustentada por um espírito
de ludicidade, espanto e doçura. Ele carrega em seu DNA o espírito do bufão e
dos tipos folgazões, mas é no solo ludovicense que ele ganha autonomia
estética. Caracterizado por macacões amplos em chita ou tecidos vibrantes, o Fofão é adornado por guizos que anunciam
sua chegada, criando uma sonoridade própria que se mistura ao seu icônico e
ululante bordão: “Uh lá lá!”.
A
trindade da identidade: máscara, boneca e varinha
A
vitalidade do Fofão é ancorada em
elementos que transcendem o acessório, tornando-se extensões de sua própria
memória e identidade:
· A máscara de papel: o epicentro visual e o suporte
onde a investigação artística encontra o fazer artesanal. Criada através da
técnica da papietagem (papel prensado),
ela confere ao personagem sua face única – o grotesco vibrante de narizes proeminentes que fascina e subverte a ordem cotidiana.
· A boneca: mais que um brinquedo, é o elo de interação
social e alteridade. É através dela que o Fofão
estabelece seu diálogo com o público, mediando afetos e garantindo o “ganho”
que sustenta seu cortejo.
· A varinha: símbolo de autonomia e defesa, utilizada
para demarcar seu território nas ruas, proteger seu sossego e garantir o fluxo
de sua performance gestual.
Contemporaneidade
e o fazer do artista-pesquisador
Como
artista-pesquisador com mais de três décadas de trajetória, Dalton Costa
mergulha na materialidade deste ícone para oferecer uma visão atualizada do
personagem. O processo é uma fusão de rigor técnico e liberdade criativa: da
modelagem robusta ao cromatismo contemporâneo, onde as cores pulsam na paisagem
urbana.
O Fofão, nesta perspectiva, é um personagem em pleno funcionamento. Ele transborda a galeria e ocupa o asfalto, unindo a prática artesanal a uma investigação contínua sobre as novas formas de ser e estar na folia. Ao vestir uma dessas máscaras, o folião não apenas se fantasia; ele ativa um fluxo de memória e vitalidade que mantém o Fofão como o dono absoluto das ruas maranhenses.
(texto do autor)





































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